
Bem avaliado nas pesquisas de intenção de voto na disputa pela Prefeitura de Caruaru (a 130 quilômetros do Recife, no Agreste), o presidente regional do PDT, deputado estadual José Queiroz, está confiante em ser o nome escolhido pela esquerda - leia-se o Governo Eduardo Campos - para encabeçar o pleito. Mas prefere manter a discrição para não minimizar os demais nomes que estão postos no campo da esquerda, como o da vereadora do município, Laura Gomes (PSB), esposa do atual secretário estadual de Saúde, Jorge Gomes. “É o conjunto das forças que vai decidir o que é mais importante para Eduardo Campos no município que tem 200 mil eleitores”, argumentou o pedetista, deixando claro que, em jogo, está muito mais do que uma mera briga de egos. No Recife, onde o pleito aparece dividido entre as candidaturas do PT e do vice-prefeito Luciano Siqueira (PCdoB), Queiroz prefere esperar a “ordem” do governador para fechar apoio.
Como presidente regional do PDT, o senhor avalia que o partido ganhou um novo fôlego no Estado após a eleição do vice-governador João Lyra Neto?
É evidente. Em 2004, com a morte de Leonel Brizola, os políticos e analistas que davam a entender que seria o final da legenda. Que sem a liderança de Leonel Brizola ela não resistiria. Mas o seu presidente Carlos Lupi, com muito equilíbrio, conseguiu levar adiante o sonho de Brizola, e já um mês depois (da morte de Brizola), na eleição, o partido obtinha dividendos excepcionais, com crescimento em todo o Brasil. Já ganhara musculatura. A sigla foi para a eleição de 2006 com um trabalho feito em todo o País, preparando-se para conquistar um número bom de cadeiras federais e logrou esse êxito superando, inclusive, a cláusula de barreiras. Então, diante disso, a gente pode dizer que o partido vem em um crescimento e a presença do nosso companheiro, o vice-governador João Lyra Neto, como integrante do Governo estadual, configurando ser governo. Na prática, isso alimentou também essa luta que travamos agora para o período de filiações.
Com essa nova fase do PDT, o senhor acha que o partido vem mais incisivo para a disputa de 2008?
Vem. Com essa musculatura ele vem mais amplo, mais organizado, e ainda mais firme nas suas postulações, na defesa de princípios que sempre foram suas bandeiras.
Mas vem com objetivos de ganhar um maior espaço eleitoral no Estado - disputando prefeituras - ou vai permanecer na postura de aliado, compondo vices?
Não, o partido deve ter aí na ordem de 45 a 50 candidatos a prefeito, o que será um número substancial dentro do Estado e, conseqüentemente, está trabalhando para conseguir conquistas importantes, prefeituras estratégicas.
Após o período hábil para filiações e troca de domicílio eleitoral, o PDT vem com chapas competitivas para a disputa? Quais as expectativas do partido?
Em termos de proporcional, ainda não é possível fazer uma aferição, mas conquistamos muitos vereadores com a organização do partido em 140 municípios. Nesse período novo, queremos crer que também haverá um aumento substancial no número de vereadores que o partido registra hoje.
Em Ipojuca, registrou-se um caso bem atípico, que foi o fato dos dez vereadores do município filiarem-se ao PDT. Pouco tempo depois, com a decisão do Tribunal Superior Eleitoral, eles tentaram voltar atrás, mas não conseguiram. Como está essa situação agora? O PDT não alertou esses parlamentares para o risco deles não serem reeleitos em 2008?
Esse projeto de Ipojuca tem uma condição local e não há uma interferência do PDT regional. Quem conduziu o processo foi o prefeito de Ipojuca (Pedro Serafim), e, conseqüentemente, com condições de convencer com os seus argumentos o que era bom e o que não era para os vereadores. Até esse instante, os parlamentares permanecem no PDT.
Um dos pleitos do PDT é o município de Caruaru, que vem com o seu nome para a disputa. E um dos possíveis adversários faz parte da base aliada do Governo, que é a vereadora do município Laura Gomes (PSB). O senhor espera que o Palácio das Princesas interfira no processo de articulação para unir essas duas forças?
Caruaru é um exemplo à parte. Lógico que a eleição de Caruaru passa pela concepção de Governo. Na terra do vice-governador não poderia haver divergência. Terá que haver unidade. Agora, essa unidade é construída sem pressa. Temos até junho de 2008, período das convenções, e tempo suficiente para digerir no processo toda uma discussão que será democrática, entre as lideranças e segmentos sociais já engajados no processo. Eu asseguro que, da mesma forma que nós tivemos um conjunto de forças trabalhando pela vitória de Eduardo e João Lyra em Caruaru, esse conjunto estará unido para também conquistar a Prefeitura de Caruaru.
Mas nem o senhor, nem a vereadora Laura Gomes demonstram abrir mão da candidatura...
Não acho que entra em discussão essa questão de abrir ou não abrir. A competência política, o compromisso público, a força dessa unidade, já demonstrada na eleição passada, sobrepõe-se a essa questão de abrir ou não abrir.
Seria possível o deputado José Queiroz e a vereadora Laura Gomes em uma mesma chapa?
Por que não? Afinal de contas é o diálogo político que transforma alguma divergência em solução. E é um diálogo político que não é bilateral. Que não é meu, nem de Laura. É do conjunto dessas forças que vai decidir o que é mais importante para Eduardo no município.
Concretizada essa hipótese, como ficaria a disputa pela cabeça e pela vice?
Eu não estou discutindo preferência pela cabeça ou pela vice na composição da chapa para majoritária. Estou dizendo que a forma como vamos processar essa discussão vai ter a interferência de todas essas forças.
A base aliada já trabalha com três nomes para compor uma possível vice em sua chapa. O da própria vereadora Laura Gomes, o do empresário Douglas Cintra (PTB), e o da procuradora Raquel Lyra (PSB), filha do vice-governador João Lyra Neto. Isso já pode ser considerado um indício de que seu nome será o referendado?
Não digo que o meu nome será referendado. Quero saber se os elementos que serão reunidos pelo conjunto de forças serão de convencimento. Não tenho pressa.
O prefeito de Caruaru, Tony Gel (DEM), ainda não indicou o nome do seu sucessor: se o ex-deputado estadual Roberto Liberato (DEM) ou o secretário municipal de Saúde, Oscar Capistrano. Mas o senhor acredita que, seja ele qual for, já entra com peso na disputa?
Não tenho dúvida. A gente tem que reconhecer a força política e eleitoral do prefeito Tony Gel. E por isso mesmo não vou desconsiderar em nenhum momento da disputa essa sua interferência no processo. Nós respeitamos a liderança do prefeito e é por isso que eu acabo de assinalar, sublinhar que o conjunto de forças do Governo Eduardo Campos haverá de decidir, por ter consciência de que Caruaru é um município estratégico, que tem do outro lado uma força eleitoral e, conseqüentemente, observar a racionalidade política para a decisão.
Passados oito anos da gestão Tony Gel, a oposição entra na disputa com mais munição contra o atual prefeito?
Não vejo a disputa de preparação de munição contra o atual prefeito. Caruaru tem crescido muito, nós fomos artífices, eu e João Lyra Neto, desse grande projeto de desenvolvimento de Caruaru, e para nós a população se torna cada vez mais exigente diante daqueles que postulam o Executivo. Então, o que é necessário é oferecer propostas convincentes à sociedade e que, a partir dessas propostas, ela se convença de que o candidato está dentro de um plano moderno de discussão, não apenas com munição para atirar no adversário, mas munição para servir à coletividade.
O governador Eduardo Campos, no momento da eleição, ganhou a adesão de muitos votos com o discurso de que caminharia ao lado do Governo Lula. E agora a esquerda chega em Caruaru tendo como carta na manga o discurso do alinhamento com o Governo Estadual, principalmente após a chegada dos investimentos do PAC - onde Caruaru já recebeu R$ 15 milhões?
Nosso conjunto caminha duplamente alinhado: com o Governo Eduardo Campos e com o Governo Lula. E este é um trunfo da eleição. O conjunto das forças de Eduardo Campos - e nesse conjunto caminha o PT - vai trabalhar com o alinhamento dessas forças.
Em Caruaru, o clima já está acirrado. A esquerda está
colocando essa tática em prática, com a chegada de investimentos e campanhas de outdoor... Daqui para a eleição, a tendência é aprofundar ainda mais esse quadro com mais investimentos?
Acho que o Governo Lula tem dado demonstrações claras sobre o tratamento que oferece aos municípios, independente de quem seja o prefeito. E Tony Gel é testemunha de que recebeu tantos recursos do Governo Federal, e não seria agora que isso seria alterado. O vice-governador já intermediou ações concretas para o prefeito Tony Gel. Esse plano administrativo não vai envolver o processo de discussão eleitoral.
Como adversário, qual a avaliação que o senhor faz da gestão Tony Gel?
Tenho por hábito deixar que seja da população a responsabilidade de fazer a avaliação de um prefeito que é nosso adversário. A ela cabe examinar o que foi bom, quais foram defeitos e, ao final, oferecer a sua nota.
Mas em termos de discurso de campanha, com certeza vai haver críticas...
Em discurso de campanha posso muito bem colocar as minhas propostas. E na hora em que eu digo que deverei conduzir um projeto de tal ordem para a comunidade, se ele não foi tocado durante os oito anos de Governo (Gel), já é um contraponto. Mas não pretendo estabelecer tiroteio com o prefeito Tony Gel.
E no Recife? O PDT acompanha o pensamento do prefeito João Paulo (PT), que até então mostra preferência pelo nome do secretário de Planejamento Participativo, João da Costa (PT)?
Somos aliados do governador Eduardo Campos, do presidente Lula e, conseqüentemente, do prefeito João Paulo. Compreendemos que é de sua responsabilidade a condução do processo sucessório no Recife. Depois de passar oito anos de uma administração exitosa, a responsabilidade é muito grande, até mesmo para quebrar o tabu de que prefeito não faz o seu sucessor. Até o momento, o PDT não teve oportunidade de conversar com o prefeito João Paulo. Só quando conversarmos, podemos compreender o projeto completo dele. Queremos entrar no jogo ajudando a construir a melhor proposta dentro da base do Governo.
Mas o nome de João da Costa, inicialmente, é simpático nas bases do PDT?
Todos os nomes são simpáticos dentro da base. Partimos do princípio que João da Costa é uma figura importante dentro da administração do prefeito João Paulo, o deputado (federal) Maurício Rands é outra figura que nós reputamos como um excelente quadro do PT, ou outros nomes que surjam para discussão na base. O que vai nos importar é ouvir o prefeito João Paulo para saber como ele quer conduzir o processo. Se quer conduzir tendo uma candidatura do PT e entendendo que múltiplas candidaturas serão importantes, ou se quer um projeto em que consiga juntar essas forças no entendimento de Eduardo.
O vice-prefeito Luciano Siqueira já sinaliza que não abre mão de sair candidato. O senhor não acha que mais de uma candidatura na esquerda iria viabilizar os projetos da oposição?
Acho que depende de qual seja a visão do condutor do processo, com o governador sendo evidentemente coadjuvante no processo. Na outra eleição (2006), os analistas entenderam que mais de uma candidatura ajudou. Nesta, esses agentes do processo terão que fazer uma avaliação mais cuidadosa para saber o que é mais importante para o Governo.
Confirmada uma candidatura do PT e de Luciano Siqueira, o PDT ficaria dividido ou saberia a quem apoiar?
Estamos sob hipótese. Prefiro deixar que vivamos a realidade já que somos aliados do prefeito. Evidente que seria um novo quadro que eu teria que ouvir o colegiado.